quinta-feira, junho 14, 2007

Ele vai nú

DEUS vai nú.
Vai ausente de vergonha e espanto, bamboleando-se, pederasta, pelos ground zero da loucura humana.
Vai sem vinganças nem justiças, peidando-se aqui e ali, protegendo os pés meninos do braseiro que foram duas torres, conversando com os mortos como se estivessem vivos, abençoando generosamente os malditos.
Vai com salsa nos ouvidos, para não ouvir os tiros e as lágrimas - excepções ao silêncio esquelético.
Deus vai com venda de cabra cega para não dar pelas cabeças desgarradas dos corpos que já não se sabe onde estão, porque os tubarões comeram, porque as fogueiras devoraram, porque a destruição, porque o ódio, porque a selvajaria, porque a indiferença.
Deus vai pelas avenidas do sofrimento, sorrindo complacente e erguendo continências para as milícias danadas.
Deus vai de blindado, sorridente e cumprimentando de longe os soldados do crepúsculo.
Deus vai nú.
Desce pelos escombros humanos como que deslizando pelo corrimão da infância, consciente da inconsciência da história, como um diplomata com assento permanente no Conselho de Segurança das Contas Bancárias Suiças.
Deus vai impune, perseguindo os famintos pelas montanhas e pelos desertos, disparando morteiros sobre o desespero, despejando ódio pelas aldeias, deixando filhos sem mães e o mundo todo orfão. Pouco a pouco, este Deus que vai nú, revela a sua pura natureza e deixa indelével nas paredes do mundo a impressão digital do mistério.
Pouco a pouco toda a gente vai ficar a saber como é o inferno…
Porque o inferno é aqui.

2 comentários:

João Carlos Carranca disse...

o inferno é num virar da esquina da vida. mas é lá que estão os meus amigos

Abraços

Anónimo disse...
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